Mixed

    Os bons vi sempre passar
    No mundo graves tormentos;
    E para mais me espantar,
    Os maus vi sempre nadar
    Em mar de contentamentos.

    Cuidando alcançar assim
    O bem tão mal ordenado,
    Fui mau, mas fui castigado.
    Assim que, só para mim,
    Anda o mundo concertado.


    Luís de Camões

    O bicho

    Vi ontem um bicho
    Na imundice do pátio
    Catando comida entre os detritos.

    Quando achava alguma coisa,
    não examinava nem cheirava:
    Engolia com voracidade.

    O bicho não era um cão,
    Não era um gato,
    Não era um rato.

    O bicho, meu Deus, era um homem.


    Manuel Bandeira

    ------------------------ Literatura

    No azul da adolescência as asas soltam,
    Fogem ... Mas aos pombais as pombas voltam,
    E eles aos corações não voltam mais...


    Raimundo Correia

    O guardador de rebanhos

    Eu nunca guardei rebanhos
    Mas é como se os guardasse.
    Minha alma é como pastor,
    Conhece o vento e o sol
    E anda pela mão das Estações
    A seguir e a olhar.
    Toda a paz da natureza sem gente
    Vem sentar-se a meu lado.

    Minha tristeza é sossego
    Porque é natural e justa
    E é o que deve estar na alma
    Quando já pensa que existe
    E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.


    Alberto Caeiro

    As pessoas que falam mal dos outros são como lixas: podem arranhar, machucar ou até fazer chorar. Adivinha o final, todos estarão mais lindos e polidos! E as lixas? Apenas gastas e feias.

    As pombas

    Vai-se a primeira pomba despertada...
    Vai-se outra mais...mais outra...enfim dezenas
    De pombas vão-se dos pombais, apenas
    Raia sanguínea e fresca a madrugada...

    E á tarde, quando a rígida nortada
    Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
    Ruflando as asas, sacudindo as penas,
    Voltam todas em bando e revoada ...

    Também dos corações onde abotoam,
    Os sonhos, um por um, céleres voam,
    Como voam as pombas dos Pombais;

    Cantigas praianas

    Ouves acaso, quando entardece
    Vago murmúrio que vem do mar,
    Vago murmúrio que mais parece
    Voz de uma prece
    Morrendo no ar?

    Beijando a areia, batendo as fráguas,
    Choram as ondas, choram em vão:
    O inútil choro das tristes águas
    Enche de mágoas
    A solidão...

    Duvidas que haja clamor no mundo
    Mais vão, mais tristes que esse clamor?
    Ouves que vozes de moribundo
    Sobem do fundo
    Do meu amor.


    Vicente de Carvalho

    Alma minha gentil, que te partiste
    tão cedo desta vida descontente,
    repousa lá no Céu eternamente,
    e viva eu cá na terra sempre triste.

    Se lá no assento etéreo, onde subiste,
    não te esqueças daquele amor ardente
    que já nos olhos meus tão puro viste.

    E se vires que pode merecer-te
    alguma cousa a dor que me ficou
    da mágoa, sem remédio, de perder-te,

    Roga a Deus, que teus anos encurtou,
    que tão cedo de cá me leve a ver-te,
    quão cedo de meus olhos te levou.

    Poema retirado da obra Poesia Completa

    Triste, Poeta, triste a florzinha azul que sem querer pisaste no teu caminho...
    Miosótis - disseste, inclinado um instante sobre ela.
    E ela acabou de morrer, aos poucos, dentre a relva úmida.
    Sem nunca ter sabido que se chamava miosótis.
    Nem que iria impregnar, com o seu triste encanto,
    O teu poema daquele dia...


    Mário Quintana

    Quase

    Um pouco mais de sol - eu era brasa,
    Um pouco mais de azul - eu era além.
    Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
    Se ao menos eu permanecesse aquém...


    Mário de Sá-Carneiro

    Cantigas praianas

    Ouves acaso, quando entardece
    Vago murmúrio que vem do mar,
    Vago murmúrio que mais parece
    Voz de uma prece
    Morrendo no mar?

    Beijando a areia, batendo as fráguas,
    Choram as ondas, choram em vão:
    O inútil choro das tristes águas
    Enche de mágoas
    A solidão...

    Duvidas que haja clamor no mundo
    Mais vão, mais tristes que esse clamor?
    Ouves que vozes de moribundo
    Sobem do fundo
    Do meu amor.


    Vicente de Carvalho

    Alma minha gentil, que te partiste
    tão cedo desta vida descontente,
    repousa lá no Céu eternamente,
    e viva eu cá na terra sempre triste.

    Lá no assento etéreo, onde subiste,
    não te esqueças daquele amor ardente
    que já nos olhos meus tão puro viste.

    E se vires que pode merecer-te
    alguma cousa a dor que me ficou
    da mágoa, sem remédio, de perder-te,

    Roga a Deus, que teus anos encurtou,
    que tão cedo de cá me leve a ver-te,
    quão cedo de meus olhos te levou.

    Inutilia truncat

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    12/03/2007
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    • Basj

      APRECIE LITERATURA

       
    • Mixed

      o eloquente silêncio do lirismo de minha página

      Sábias agudezas... refinamentos...
      - não!
      Nada disso encontrarás aqui.
      Um poema não é para te distraíres
      como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
      Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
      Um poema não é também quando paras no fim,
      porque um verdadeiro poema continua sempre...
      Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
      não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.